08 de abril de 2026 · Diego Mendes de Souza
App de triagem de metanol: por que os criadores do AlcoLab abriram mão da patente para lançar a ferramenta de imediato
Um app de triagem de metanol gratuito e open source, criado do próprio bolso. A história de quem decidiu que contribuir para a saúde pública pesava mais do que qualquer retorno.

A encruzilhada
Quando a metodologia já estava estruturada e os testes experimentais confirmavam o potencial da ferramenta, a equipe — Diego Mendes de Souza, Pedro Augusto de Oliveira Morais, Nayara Ferreira Santos e Romério Rodrigues dos Santos Silva — precisou decidir o que fazer com o que havia construído (App de triagem de metanol).
A primeira opção seria propor os instrumentos utilizados como um dispositivo físico mínimo e iniciar um pedido de patente. Seria o caminho mais seguro para proteger a invenção e eventualmente obter retorno pela invenção, estudo e trabalho investidos.
O problema é que havia há surto ativo, no Brasil e fora dele. Pessoas estavam sendo intoxicadas e algumas perdendo suas vidas. E a janela entre "ideia pronta" e "patente concedida" poderia durar anos.
A segunda opção era lançar imediatamente, de graça, assumindo os custos do próprio bolso — servidor online, domínio, materiais de teste, bebidas para calibração — sem garantia alguma de retorno. Escolheram esta segunda.
O que "open source" significa na prática
O AlcoLab (App de triagem de metanol) foi publicado sob licença AGPL-3.0 — uma das licenças de código aberto mais rigorosas disponíveis. Ela garante que qualquer versão derivada da ferramenta também precise ser aberta, impedindo que terceiros transformem o código em produto proprietário sem disponibilizar as modificações.
Antes da publicação pública, a equipe realizou dois passos estratégicos:
- Depósito junto ao INPI — que fixa a data de prioridade da invenção no Brasil; e
- Publicação no Zenodo, repositório científico internacional.
Esses registros não visam exploração comercial, mas sim justamente o contrário. Nesse sentido, visam impedir que outra pessoa ou empresa reivindique a ideia como própria depois que ela já foi tornada pública. É, portanto, uma proteção orientada à abertura, não ao fechamento.
O código completo está disponível em github.com/diegoanapolis/alcolab. Qualquer pessoa pode revisar a metodologia, auditar o algoritmo, sugerir melhorias ou adaptar a ferramenta para outros contextos — desde que mantenha o mesmo compromisso de abertura.
O custo real da gratuidade
Por outro lado, software gratuito (App de triagem de metanol) não significa software sem custo. Significa que alguém está arcando com ele.
No caso do AlcoLab, essa conta foi — e ainda é — paga por nós criadores. Hospedagem em servidor, registro de domínio, bebidas comerciais compradas para testes experimentais, materiais para calibração e muitas horas de pesquisa e de trabalho. Tudo saiu do bolso da equipe, que trabalhou por meses sem nenhum incentivo externo.
Nesse sentido, os custos estimados até aqui estão listados na tabela abaixo.
| Item | Detalhe | Custo estimado |
|---|---|---|
| Bebidas para calibração | 10 rótulos (whisky e vodka) | R$ 1.000 |
| Reagentes químicos | Etanol e metanol PA, 10 L cada | R$ 1.600 |
| Infraestrutura — Railway Pro | US$ 20/mês \times 6 meses | R$ 700 |
| Ferramentas de desenvolvimento | GitHub Copilot + Claude Max, 6 meses | R$ 3.840 |
| Horas de P&D | 290 h (Diego 150h · Pedro 80h · Romério 30h · Nayara 30h) | R$ 29.000 |
| Total investido estimado | R$ 36.140 |
Isso é possível enquanto dura o fôlego. E a equipe é honesta sobre os riscos: projetos open source sem apoio institucional têm um histórico conhecido de esgotamento. Desenvolvedores voluntários se sobrecarregam, manutenção se acumula, atualizações deixam de ser feitas e a infraestrutura vai ficando vulnerável. O resultado é o que o meio chama de abandonware — software que existe, mas não tem mais ninguém por trás.
É exatamente isso que a equipe quer evitar justamente por acreditar no impacto positivo da ferramenta para saúde pública.
Por que a abertura importa para uma ferramenta de saúde pública
O método de referência para detectar metanol em bebidas é a Cromatografia Gasosa (CG) — técnica de alta precisão, exatidão e discriminação que separa e identifica os componentes de uma mistura com confiabilidade. Equipamentos CG, a depender da configuração, custam entre R 600 mil. Nesse sentido, a maioria dos municípios brasileiros, não possuem esse tipo de equipamento disponível — e a maioria dos países afetados por contaminação de bebidas também não.
Quando a análise depende de equipamentos que só existem em capitais ou grandes centros de pesquisa e ou de perícia, a capacidade de triagem durante uma crise fica geograficamente restrita. É esse gap que o AlcoLab tenta endereçar: uma ferramenta que usa uma seringa de farmácia; balança de cozinha com resolução minima de 0.1g; e um celular com câmera; acessíveis a grande parte das pessoas.
| Cromatografia gasosa (GC-MS/FID) | AlcoLab | |
|---|---|---|
| Custo do equipamento | > R$ 200 mil | ~ R$ 0 |
| Materiais por teste | Reagentes e padrões especializados | Seringa + balança |
| Custo por análise (3 rep. + branco) | R 1.400 | ~ R$ 0 |
| Tempo de resultado | Horas a dias | 15 – 25 min |
| Acesso | Laboratórios especializados | Qualquer pessoa |
| Confirmatório | Sim | Não (triagem) |
Nesse sentido, torná-la aberta não foi só uma declaração de valores — foi também uma decisão consistente e prática. Código e metodologia confiáveis precisam ser auditáveis, sobretudo quando se fala em saúde. Metodologia transparente pode ser verificada por outros pesquisadores e técnicos da área, como desejamos. E uma ferramenta gratuita alcança exatamente quem mais precisa dela: agentes de fiscalização em regiões com pouca estrutura, pequenos produtores, distribuidores e até consumidores.
Os primeiros resultados
Em cerca de um mês de site público, o AlcoLab (App de triagem de metanol em bebidas destiladas) registrou quase 2.500 visitantes únicos e aproximadamente 34 mil requisições ao servidor, com acessos de todos os continentes — Brasil, Estados Unidos, China, França, Canadá, Singapura e Suíça, entre outros.
Esses números confirmam o que a equipe já suspeitava: o problema não é brasileiro. A contaminação de bebidas por metanol afeta, portanto, dezenas de países, especialmente onde fiscalização e infraestrutura laboratorial são limitadas. Uma solução aberta tem, por definição, alcance que uma solução proprietária dificilmente teria.
O que a equipe busca agora
A sustentabilidade do projeto depende de parcerias. A equipe busca apoio em três frentes: (1) validação técnica, (2) manutenção financeira e (3) aperfeiçoamento contínuo da ferramenta.
No âmbito internacional, foram contatados os Médicos Sem Fronteiras — que mantém a Methanol Poisoning Initiative desde 2012 —, a OPAS/OMS, fundações como Wellcome Trust e Gates Foundation, e organismos como BID Lab e STDF. No âmbito nacional, a lista inclui Fiocruz, MAPA, ANP, vigilância sanitária e parlamentares. Ademais, no campo do fomento à pesquisa, há submissões planejadas à FAPEMA, FINEP e FAP-DF.
Nesse sentido, nenhuma parceria está fechada ainda. O projeto é recente e as tratativas estão em curso. Por outra lado, o que existe de concreto é a ferramenta em si: funcional, gratuita, auditável, disponível agora.
Uma nota final
A escolha por abrir o código e lançar de graça não foi indolor. Significa abrir mão de qualquer retorno direto pelo trabalho feito. Significa continuar bancando os custos sem saber por quanto tempo. Significa, portanto, apostar que o impacto coletivo vale mais do que a proteção individual da invenção.
Para a equipe do AlcoLab, pesou mais a possibilidade de que a ferramenta chegasse a tempo — a consumidores, fiscais, distribuidores, agentes de saúde — do que a segurança de um modelo de negócio que ainda demoraria anos para se concretizar.
Isso não é manifesto. É apenas o que aconteceu.
AlcoLab está disponível em alcolab.org.Código-fonte: github.com/diegoanapolis/alcolab
Se este projeto faz sentido para você, a forma mais direta de ajudar é compartilhar com quem possa se beneficiar — um consumidor, um produtor, um fiscal, alguém que trabalhe com segurança alimentar. E se você representa uma instituição que poderia apoiar o AlcoLab, ou conhece quem possa, entre em contato: [email protected]
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